O Pródigo e o Enjeitado

Costumo me orgulhar da minha memória para fatos importantes de minha vida – e outros nem tão importantes assim. Não que eu seja um prodígio para lembrar datas, nomes de pessoas e de lugares – aliás, sou bem ruim pra tudo isso que citei até agora. Mas lembro com detalhes de dias ensolarados na praia com meus pais na minha mais tenra infância, da minha primeira professora e de todos os meus colegas do pré-primário…se é que ainda chamam assim o primeiro contato da gente com a escola.

Lembro-me perfeitamente de quando ouvi a parábola do Filho Pródigo pela primeira vez…foi numa manhã ensolarada de sábado na sala paroquial da Igreja Nossa Senhora Consolata, na Zona Norte de São Paulo em uma das aulas da Catequese. A professora fez a leitura do Evangelho de São Lucas e, confesso, ela me deixou um tanto perturbado.

Como podia aquele cara tão esnobe, esbanjador e cheio de si, simplesmente se mostrar arrependido de ter torrado toda a sua herança e ter, de volta, o carinho e admiração do seu pai? Não tenho vergonha de admitir que sempre me pareceu correta a indignação do filho mais velho em ver que um belo novilho havia sido sacrificado em comemoração pela volta do perdulário filho mais novo. Mas como eram as palavras do próprio filho do “Cara Lá de Cima”, sempre achei que pensar assim era mais um dos meus desvios, algo a mais para somar aos meus pecadinhos diários que precisei confessar ao padre antes de tomar minha primeira comunhão.

Alguns anos mais tarde, já na puberdade, auge do sentimento de revolta e do complexo de perseguição, me sentia identificado com o João Pedro –personagem da novela Renascer, interpretado pelo ainda jovem ator Marcos Palmeira. João era o dedicado filho de um grande produtor de cacau de Ilhéus, que o rejeitava por ter perdido sua amada durante o parto em que ele nascera. Ele era o Filho Enjeitado, que fazia de tudo pelo pai, mas não tinha de volta a sua recompensa.

Eis que, duas décadas depois, me deparo com uma jovem gaja, a Enóloga e Engenheira Agrônoma Joana Silva Lopes, que, após me mostrar alguns belos exemplares de brancos e tintos do Alentejo, me apresentou, com uma pontinha de satisfação antecipada dois rótulos com nomes pra lá de sugestivos (aliás, não me canso de repetir o mantra de que os portugueses tem os melhores nomes de ruas, de vinhos e os doces mais deliciosos do mundo!!!).

O primeiro vinho provado tinha uma coloração pra lá de intensa, num tom brilhante que tingiu a taça de violeta. Logo em seguida meu nariz encontrou aquela fruta em compota, um toque de terra e alguma coisa de erva de tempero… na boca um ataque elegante de chocolate amargo e grão de café torrado…um tempinho depois, aquele cheiro de que tanto gosto de caixa de charutos…e o incrível é que a sensação daquele gole não saía da boca…uma persistência típica do Filho Pródigo (nome dado pela vinícola portuguesa Encostas de Extremoz a esse vinho), que após causar toda aquela confusão na minha cabeça, continuava me dando vontade de ter por perto…parece loucura, mas 20 anos depois consegui entender o porque o pai celebrou o retorno do seu filho!

Mas ainda havia mais para ser visto e provado. Recebi uma nova taça de um vinho realmente vigoroso…um diamante bruto daqueles que não se mostram totalmente no primeiro momento, mas que te encantam quando se conhece sua essência. Frutas negras com toque de menta no nariz e na boca um primeiro ataque sutil, ataque que desaparece e que segundos depois se transforma e cresce, numa verdadeira biblioteca de sabores e aromas. Menta, muita menta, acompanhada de perto por chocolate bem amargo, frutas secas e um sei lá o que mais que me fez esquecer completamente a feira lotada. O Enjeitado (como se chama esse blend das uvas lusitanas Alicante Bouschet e Trincadeira) aparecia brilhante e sem retoques, franco como são aqueles que passaram por certas dificuldades na vida em comunidade, mostrando-se com certa vergonha inicial, que some completamente quando ele comunga com sua boca e garganta.

Acho que a Joana percebeu que havia me tocado de forma especial com aqueles vinhos, pois, segundos depois de prová-los ela confidenciou sua preferência pelo patinho feio. A maioria das pessoas prefere o Pródigo, mas eu gosto mais do Enjeitado – disse ela, já sem esconder orgulho pela cria que encantava a todos na Expovinis.

Meu muito obrigado ao Max e ao Germán da Bodegas pela oportunidade de conhecer esses vinhos em primeira mão e a colega Joana pela aula sobre como fazer vinhos com carinho e simplicidade, de como conseguir brilho especial de castas autóctones e, sobretudo, pela ajuda ao me livrar do meu pequeno pecado…afinal, agora entendi o que Ele queria dizer em sua parábola!