Pedido a uma estrela

Domingo, início do inverno na Serra Gaúcha. Em Canela um lindo dia de sol, frio para os padrões desse Paulistano que vos fala, termômetros marcam 7 graus na estrada que me leva à Enoteca dos Mercadores de Vinhos em Gramado.

No céu limpo, uma lua cheia preguiçosa insiste em continuar no firmamento ainda brilhante mesmo estando já no meio da manhã. Ligo o rádio para buscar uma companhia enquanto os clientes ainda não chegaram e escuto o tema da clássica história escrita por Carlo Collodi em 1883 e imortalizada por Walt Disney – Pinoquio (ou Pinocchio no original em Italiano) intitulada ‘When You Wish Upon A Star’ – que ganhou em 1940 o Oscar de melhor canção. Ela é simples, direta e muito sentimental – para mim uma das canções mais lindas produzidas para o cinema.

Confesso que a história do boneco de madeira com nome de fruto de inverno (Pinocchio é uma palavra do dialeto Toscano que significa pinhão) entalhado por Geppetto e que sonha virar um menino de verdade sempre me provocou sentimentos dicotômicos. Trata-se em linhas bem gerais de um alerta para as crianças de que falar a verdade e ter boa índole evita muitos males…mas sempre achei as tintas usadas para o aviso um tanto fortes. Minha fascinação pela história sempre veio ligada a um certo desconforto com as diversas experiências complicadas que o personagem vive em suas aventuras.

Mas como chegamos à Toscana, resolvi pedir à minha estrela (aquela mesma que trouxe alegrias ao entalhador italiano) que me trouxesse lembranças recentes de um vinho dessa região que valesse ser comentado nessa coluna mensal. E a fada madrinha não me decepcionou e me trouxe à tona a assinatura mineral do caldo amarelo-ouro brilhante e levemente esfumaçado, com um indefectível aroma mineral ligado a doses bem medidas de açúcar queimado, avelãs e damascos.

Me arrisco a forçar a memória e lembrar do seu gosto e recordo de sua deliciosa acidez, acrescida de cremosidade e de uma certa sapidez…o gosto dele não daí da boca e a estrutura sólida, maciça mesmo surpreendente para um vinho de teor alcóolico na casa dos 12,5%. O vinho é o Valentini Trebbiano d’Abruzzo.

E pra deixar o vinho ainda mais brilhante, convém lembrar que os viticultores da pobre Abruzzo sempre tiveram dificuldades para produzir e comercializar seus vinhos que, de modo geral, tem pouca qualidade e baixíssimo preço, corpo fraquinho e aromas quase nulos. Desse terreno desolador nasce Edoardo Valentini, o cientista louco, que com suas experimentações era equiparado por muitos ao mito italiano Angelo Gaia. Com sua morte em 2006, seu filho Francesco Paolo Valentini seguiu a fórmula do pai, colhendo uma quantidade mínima de frutos por planta, fermentando e envelhecendo o vinho em grandes tonéis de carvalho por longos períodos para produzir esse verdadeiro diamante bruto.

Lembro-me então do belo rótulo do vinho e, seja por conta da trilha sonora ou dessas mal escritas linhas, encontro uma certa semelhança do desenho do rótulo com o boneco de madeira da história…vai ver o Edoardo é o verdadeiro Geppetto dos vinhos abençoado pela estrela…que acham?