Um luthier na Serra Catarinese

Imagino que quase todo mundo tem algo que gostaria muito de ter ou fazer e que, por força das circunstâncias da vida, acaba deixando de lado.

Eu sempre quis tocar violão. Libriano que sou, sempre achei a música uma das mais belas manifestações da arte e, lógico, sempre me imaginei podendo usar as mãos pra produzir algo belo em parceria com um instrumento de cordas.

A chegada anunciada do meu primogênito Enrico para julho próximo, me trouxe a dose extra de estímulo necessária para iniciar os estudos há muito planejados. Devo confessar que, após as 3 primeiras semanas, os resultados ainda são incipientes, mas já muitíssimo prazerosos. E como é bom quando as notas e o sincronismo entre as mãos se mostram não só possíveis, como também controláveis e completamente lógicos… Comparo o meu sentimento ao de uma pessoa que aprende a ler após os trinta anos…é algo simplesmente mágico!

Todo o dito acima, como de costume, serve de preâmbulo para falar de vinhos. E é aí que entra o curitibano José Eduardo Pioli Bassetti. O engenheiro químico com trejeitos de artista, o editor com lampejos de poeta, o vitivinicultor com o preciosismo de um luthier.

Estamos na Serra Catarinense, em São Joaquim, onde a altitude, o frio e o solo raso e pedregoso servem de pano de fundo para a produção de uvas extremamente propícias para grandes brancos, tintos e rosés. Somos recebidos na pequena e charmosa Villagio Bassetti com o entusiasmo que só os amigos mais próximos e familiares poderiam esperar.

Entre as visitas aos talhões de castas diversas, meticulosamente imbricados em um mar de morros pontilhados de terraços de taipas e araucárias centenárias, descobrimos o quanto da alma é colocado em cada quilo de uva colhida, aliás bem poucos quilos por pé, resultantes de podas meticulosas, desbastes e conduções que deixam cada rua do parreiral ainda mais bonita e simétrica.

E tal e qual o luthier, que após encontrar a madeira certa, utiliza seus cinzéis, lixas colas e resinas para trazer à vida um instrumento único, o cuidado com a matéria-prima é recompensado com um trabalho artesanal e minimalista na cantina, que mistura bom gosto com muito conhecimento técnico e a dose certa de tecnologia.

E a somatória das terras e vinhas barrigas-verdes com um enólogo gaudério e um proprietário coxa-branca se fundem em uníssono produzindo Sauvignons-Blanc com e sem barrica com uma personalidade escassa em terras brasileiras, merlots e cabernets unidos em um corte bordalês que tem fruta, aroma e acidez, produzindo um vinho bom demais pra comida e pra fechar a sinfonia, um grande ícone de nome Primiero mostrando o quão grande um Cabernet desse terroir pode ser.

Mas luthier que se preza tem sempre alguns projetos escondidos…coisas pessoais e autorais, como um passito feito com uvas de sobrenome italiano fermentados integralmente em barrica e guardados à sete chaves para uma comemoração especial, ou um pinot noir sem aquele sotaque francês da Borgonha, mas com uma personalidade e assinatura que dispensa comparações e pré-conceitos.

Obrigado Eduardo, Eliana e Anderson pela aula de bem receber, pela alma cheia de bem querer e principalmente pelos vinhos que só fazem surpreender.